sexta-feira, 6 de julho de 2012

Explosão popular

Eduardo Maluf


Cinthia Inoue é advogada, tem 32 anos, não perde jogo do Corinthians por quase nada. Anteontem, esteve no Pacaembu para ver de perto o momento mais importante da história de sua equipe. Embora descendente de japoneses, nunca foi à Ásia. Agora providencia o passaporte para assistir de camarote ao desfile corintiano no Mundial de dezembro. O "Timão" lhe dá o empurrão que faltava para ir atrás de algo em que nunca havia pensado mais seriamente: conhecer sua origem, a terra dos avós, bisavós...
A jovem apaixonada por futebol e pelo Alvinegro simboliza o poder desse jogo e a força do clube radicado no Parque São Jorge, mas seguido por gente de todas as partes do País. Poucas vezes na vida eu havia acompanhado manifestação popular tão grande como a dos últimos dias em São Paulo. Amigos e familiares corintianos se reuniram em casas, bares e restaurantes para torcer pelo inédito título da Libertadores. Amigos e familiares não-corintianos se juntaram para torcer contra. Até quem não enxerga muita graça nisso tudo ligou a TV, e a Globo alcançou audiência das mais expressivas.
O futebol é o mais emocionante e popular esporte do planeta por ser o menos lógico entre todos. Ou o leitor imaginaria que um goleiro desconhecido até outro dia seria um dos heróis do triunfo? Que um baixinho vindo do Bragantino há poucas semanas faria um gol incrivelmente decisivo no estádio mais famoso da América do Sul em plena final da competição? Que um dos resultados mais importantes para o título continental seria justamente uma derrota marcante?
Que derrota, se o Corinthians foi campeão invicto? O tropeço contra a Ponte Preta, nas quartas de final do Paulistão, no Pacaembu, abriu o caminho para a glória. Livrar-se desse campeonato de segunda linha (involuntariamente, é verdade) ajudou o time a concentrar a atenção apenas na Libertadores. O Santos ganhou o Estadual (que nada acrescentou à sua história), comemorou demais, perdeu o foco e caiu na disputa que de fato tinha valor.
O Corinthians não dá espetáculo. Mas joga com humildade, os jogadores são solidários em campo, a equipe tem organização tática e a defesa dá aula de seriedade. Santos e Vélez, para mim, eram os times com mais potencial técnico da Libertadores. Não foram, contudo, capazes de comprovar a força na prática. A taça acabou no Parque São Jorge com justiça. E, agora, essa história de clube regional chega ao fim. O Corinthians é também internacional.
Desde o ano passado, quando se encaminhou para o título brasileiro, tenho dito que a equipe só conta com um craque, e não dentro de campo. Tite é o principal nome do clube. Muitos discordam, alegam que o treinador implantou futebol exclusivamente de resultados. Com o elenco que tem nas mãos, fez o que poderia, extraiu o máximo de cada atleta. Mais do que isso seria impossível. Se eu fosse o presidente do Corinthians, mandaria fazer uma estátua para Tite no Parque São Jorge.

Publicado em O Estado de S.Paulo, em 06/07/2012.

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