Antero Greco
Gosto de música brasileira e italiana, por razões culturais, familiares, afetivas. As duas escolas me encantam e inspiram. Pois acordei ontem com uma canção muito bonita de Lucio Dalla, carismático compositor bolonhês que morreu em março e que já citei em crônicas anteriores. Desde que botei os pés fora da cama, fiquei a cantarolar versos de La Sera dei Miracoli, sucesso dele nos primeiros anos 1980 que fala de uma noite especial, mágica, em que milhares de pessoas se agitam, correm de cá pra lá, à espera de fatos extraordinários.
Assim está São Paulo nos últimos dias. Paira no ar da cidade expectativa fora do comum pela partida final da Taça Libertadores, e a ansiedade se torna tão densa que parece palpável como a poluição. O torcedor do Corinthians mal dorme, à medida que se aproxima a possibilidade de ver realizado o sonho de conquista da América. Não é por acaso que oportunistas descaradamente oferecem ingressos (sabe-se lá se verdadeiros) a preços equivalentes ao de carro de luxo ou de pequeno apartamento.
O segundo duelo com o Boca Juniors é tema dominante em qualquer lugar. Vê lá se alguém perde tempo em discutir se a seleção da Espanha de hoje é melhor do que a do Brasil tricampeão do mundo em 1970. Isso é papo de gringos eufóricos e lambuzados com mel ao qual não estavam acostumados. Só terá sentido no dia em que ostentarem cinco títulos mundiais e um Pelé como astro.
O negócio que interessa por aqui é saber se Alex, Danilo, Emerson vão derrubar o multicampeão que vem da Argentina. As apostas giram em torno do placar e, mais do que isso, da possibilidade de Romarinho entrar de novo e decidir no Pacaembu, como aconteceu na semana passada em La Bombonera. Ou alguém duvida que aquele gol de empate teve significado equivalente ao de vitória?
Alvinegros se apegam ao novo talismã para reforçar a esperança; os anticorintianos se aferram aos estragos que, em edições passada, esses hermanos provocaram em Cruzeiro, Palmeiras, Santos e Grêmio, suas vítimas em decisões. E lembram que o Boca gosta de festejar nestas bandas. Vale qualquer coisa para secar e irritar a turma da Fiel.
O otimismo de uns e outros não é fora de propósito. O Corinthians tem a seu favor torcida, uma casa acolhedora, um sistema tático que funciona, jogadores maduros o suficiente para não perderem os nervos em situações extremas. Mostraram isso em todas as fases da Libertadores. (A exceção foi Emerson, expulso contra o Santos, na Vila.) O Boca conta com o pedigree vencedor, com a experiência de gente como Orion, Schiavi, Riquelme, apesar de ser sombra do timaço do início do século.
Se partirmos do pressuposto de que a decisão ocorrerá apenas dentro de campo – e assim espero que seja –, o Corinthians levanta o troféu se for fiel a sua estratégia de marcar forte na frente, de ser econômico porém letal nas oportunidades de gol que cria, se não ceder à sofreguidão de seus fãs. E se anular o maestro Riquelme, ainda fundamental para o Boca.
O momento exige a conciliação de duas posturas aparentemente conflitantes: a paixão (na entrega dos jogadores, na disputa por qualquer bola) e a razão (na paciência diante de um rival igualmente capaz). O Corinthians tem um aliado adicional, pelo menos em comparação ao jogo de uma semana atrás: a condição física melhor. O Boca travou nos últimos 15 minutos. Detalhe a ser considerado, sobretudo em eventual prorrogação.
Mas está com jeito de “noite dos milagres”, e só em 90 minutos. Amém.
Publicado em O Estado de S.Paulo, em 04/07/2012.

Nenhum comentário:
Postar um comentário