sexta-feira, 6 de julho de 2012

Apito sinfônico

Antero Greco




A zoeira na cabeça não passou. Ainda estou com os ouvidos zunindo por causa dos rojões, do buzinaço e dos “Vai, Corinthians!” que vararam a madrugada de ontem. Pra ser exato, escrevo esta crônica no fim da tarde… e não é que tem foguetório e fom-fom-fom por aí? Nem se trata de congestionamento; é de festa corintiana mesmo. Por sinal, muito justa.

Vi e revi os melhores momentos do jogo com o Boca, já sei de cor e salteado todos os movimentos dos dois gols do Emerson, li tudo quanto é coluna de jornal, blogs e comentários postados nas redes sociais. Estou por dentro dessa final especial da Taça Libertadores e imagino como objetos que fizeram parte do jogo épico vão se transformar em peças de história e museu. Muitos que estiveram no Pacaembu provavelmente guardarão algo como lembrança.

Sabe o que valeria a pena ter como símbolo dessa noite de quarta-feira dos milagres? O apito. Sim, senhor, a latinha assoprada por Wilmar Roldán talvez seja de origem ignorada, pode ter sido produzida no interior da China, de material vagabundo. Não importa. Ela fez ecoar o som mais lindo da vida de muito alvinegro. O colombiano não tem ideia do valor do gesto rotineiro de soltar o ar dentro daquela caixinha de repercussão, naquele momento, naquele lugar.

O prrrriiiiii! que se fez ouvir no Pacaembu, por volta das 23 e lá vai fumaça do 4 de julho de 2012 teve o impacto de uma sinfonia de Beethoven, uma cantata de Bach, uma sonata de Mozart. O som estridente valeu por uma orquestra de câmara. Não, não, é pouco. Foi o equivalente a uma filarmônica, daquelas grandiosas, de Berlim, Londres, Viena. E o regente foi o latino Roldán, elevado a um Von Karajan dos gramados.

Se pudesse, não pegaria a camisa de algum jogador, nem a bola do jogo, muito menos a rede do gol do tobogã. Entrava no campo, ajoelharia diante do árbitro e lhe imploraria ter o apito como souvenir. Pagaria o que pedisse. Se não fosse convincente, arrancava da mão dele, saía correndo, saltava o alambrado e saía assoprando noite adentro. Por questão de consciência, tentaria encontrar o endereço do juiz e mandaria uma cópia de prata, de ouro, de diamante!

Esse apito ficaria num pedestal, dentro de uma redoma e com sistema de alarme em volta. Proibida qualquer aproximação mais atrevida. Visitas seriam permitidas, só para dividir com amigos e parentes o orgulho de ter recordação mais preciosa do dia em que o Corinthians ganhou a América. Com uma ressalva: ninguém botaria a mão no apito. Só deveria ser cobiçado, a distância segura, e nada além disso.

Mas, em ocasiões especiais – quem sabe no fim do ano, após a vitória sobre o Chelsea, no Japão? -, sairia de lá para ser lustrado e, num gesto de carinho, levaria um soprinho de leve. Dengosamente, soaria o prriii bem suave, manhoso, que traria de volta a explosão de alegria ensurdecedora de uma linda noite de inverno.

Daí, assopraria um monte de vezes, sem parar, com as mãos regendo uma sinfônica imaginária. Os vizinhos, só os corintianos, entenderiam e aplaudiriam. Com lágrimas nos olhos. E com inveja do dono do apito.


Publicado em O Estado de S.Paulo, em 06/07/2012.

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