quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Quando o Corinthians jogou em Yokohama

João F. Quirino





Quando amanheceu o dia no Brasil, já era noite na terra do sol nascente. Estávamos acordados, fiéis e loucos, lá e cá. Ou melhor, onipresentes, como um todo-poderoso. Assim como em 1990, quando Tupãzinho empurrou a bola de carrinho, 16 de dezembro seria, mais uma vez, dia de glória. Naquela época, diziam sermos incapazes de ultrapassar os limites do estado; até há alguns meses, asseveravam que jamais transporíamos as fronteiras do país. Quebraram a cara antes, repetiram a dose agora. Éramos a piada e viramos o paradigma.

Quando o Corinthians jogou em Yokohama, sabíamos que o Chelsea jogaria no 4-2-3-1. Eles, coitados, desconheciam nossa alternância do 4-4-2 para o 4-3-3, somando 30 mil na arquibancada e outros 30 milhões nas casas, bares, padocas e onde mais houvesse uma TV ligada. Era muita desproporção a nosso favor, mesmo se considerarmos os tantos milhões de euros ingleses, ou melhor, russos. Já tivemos a lição de que grana não é tudo. Obrigado, professor Kia Joorabichian, nosso ex-Abramovic. Maior patrimônio é o que temos: a massa disposta a sofrer e a lutar, sem parar. Torcida que, qual tsunami, invadiu o Japão, assim como já fizera em 1976. Para quem pensava que o Rio de Janeiro era perto demais, percebeu que o Japão, para nós, também é logo ali. Yokohama, Maracanã, Morumbi: fazemos de qualquer lugar um grande Pacaembu.

Quando o Corinthians jogou em Yokohama, nem todos o viram, mas ali estava Ronaldo Fenômeno, no mesmo gramado em que outrora brilhou com a amarelinha. Estavam, ainda, Rivellino, Sócrates, Teleco, Cláudio, nossas vidas, nossa história e nosso amor. No impecável gramado nipônico sobrepuseram-se o chão da Fazendinha, o terrão da zona leste, os tijolos da arena em construção, a várzea onde Neco brincava, o solo do Bom Retiro sob os pés de cinco iluminados operários. A propósito, se nascemos à luz dos lampiões, hoje nos veem sob a luz dos holofotes de todo o planeta.

Quando o Corinthians jogou em Yokohama, ao seu lado adentraram jogadores de uniforme azul. Olhando bem, os uniformes também eram verdes, tricolores e até alvinegros, de outra estirpe. Cech, Lampard, Hazard e Torres eram, ao mesmo tempo, “são” Marcos, Ademir, Raí e Pelé, unidos para que o mundo não fosse nosso uma vez mais. Só que, vestidos de azul, os algozes de outrora não repetiram seus feitos. Secaram a mais não poder, em vão. Do mesmo jeito que, dias antes, fracassaram na tentativa de fazer do Al Ahly um novo Tolima.

Junto a Ralf e Paulinho estavam Rincon e Vampeta, Elias e Cristian, a garra de Biro-Biro, Wilson Mano e Ezequiel. Danilo armou jogadas à la Zenon, deu passes como Neto, confiante como Marcelinho. Fábio Santos foi combativo, raçudo: estavam consigo Wladimir e Zé Maria. Luizinho, o pequeno polegar, esteve representado pelo também pequeno, nem tão habilidoso, porém incansável, Jorge Henrique. Nosso intelectual Paulo André mostrou a inteligência do seu amigo, nosso eterno Doutor, e a segurança de Gamarra. Só Alessandro e Chicão entraram em campo como eles próprios: os bravos capitães da nave que partiu do fundo do poço da segundona para chegar ao céu sem limites do mundo. Tite, que não é Osvaldo, nem Brandão nem de Oliveira – também não é Menezes, ainda que, com certeza, um genuíno mano –, mas Adenor, o professor que ensina seus comandados a namorar e a jogar com “incansabilidade”.
Diferentemente da Libertadores, desta vez Sheik não estava endiabrado como um Edílson, nem Romarinho foi um talismã como Dinei. Nem precisaram, pois, desta vez, o protagonismo coube a Cássio: o gigante fez o primeiro milagre com o reflexo empresado por Gilmar; quando fez o segundo, assumiu a destreza de Ronaldo Giovanelli; quando fez o terceiro, já canonizado, era o próprio Dida defendendo o pênalti de Anelka.

O gol aconteceu no segundo tempo, igual a outro, também fadado a morar eternamente em nossos corações. Como em 1977, quando Basílio resvalou de cabeça na área, assim o fez Jorge Henrique. Aquela bola sobrara para Vaguinho; esta, a Paulinho. Na sequência, Danilo chutou e, como a trave de outrora, Peter Cech fez a pelota e a sina caírem na cabecinha de ouro de Guerrero, redivivo Baltazar, gringo como Carlito, oportunista como Luizão, Casagrande e Geraldão. Como se a cabeçada de Wladimir não tivesse sido interceptada, o dejá-vu nem chegou ao chute fatal de Basílio para que o grito de gol ecoasse neste e no outro lado da Terra, eternizando a imagem da bola a passar o muro vazado de Ashley Cole, Ramires e David Luiz. Quase reprodução do quadro em que aos pobres Carlos, Polozi e Oscar, caídos no chão, só restou lamentar o cumprimento do destino.

Logo após, vi Guerreiro correr em direção à torcida, ao mesmo tempo em que Chicão mordia o escudo, Marcelinho girava os braços, Rivellino gritava, Sócrates erguia o braço e cerrava o punho, Tevez dançava rúbia, Romeu dava cambalhota, Ruço jogava beijinhos, Neto deslizava de joelhos, Dentinho beijava os pulsos e o Fenômeno balançava o indicador, na falta de um alambrado para se jogar.

Quando Alessandro levantou a taça, repetindo o gesto da conquista recente da América, ali estavam William em chamas, Rincon vociferando palavrões e Gamarra com sua elegância guarani. A se lamentar, apenas a companhia de José Maria Marin e Marco Polo Del Nero, filhotes de ditadura, posando na foto histórica do time do povo, em cuja camisa a democracia esteve tão dignamente estampada.

Quando o Corinthians jogou em Yokohama, estavam lá todos os corinthianos. Alguns milhares, de corpo presente. Outros milhões, em pensamento e emoção. Outros tantos, incontáveis, que sequer residem mais neste planeta ora conquistado por sua nação alvinegra: não estão aqui fisicamente, muito embora estejam na paixão legada a filhos, netos, bisnetos ou amigos, tornados loucos no imenso bando. Representantes de um povo sofrido, nem tanto hoje como no passado. Povo em ascensão, Obamas da ZL a descobrir que, sim, nós podemos. Povo que não pode mais ser visto, a não ser sob a incurável dor de cotovelo da rivalidade doentia, como torcedores de um timinho sem glórias sediado na Marginal sem número. Perdoem-me os coirmãos: hoje, o discurso rancoroso e pseudo-elitista só evidencia o temor de que esse time se torne potência globalizada. E, quem sabe, assim será. Afinal, aqui é Brasil e aqui é Corinthians!

De qualquer forma, apesar de tudo, pode até ser que continuem a nos ver como um time menor. Nas suas palavras, um time de favelados, de desdentados e analfabetos. Isso pouco importa, pois não é assim que nós nos vemos. E, quem sabe, talvez não seja assim que o mundo nos veja, pelo menos desde que o Corinthians jogou em Yokohama.

***
Agradeço a São Jorge pelo ano maravilhoso de 2012. Ano em que superamos o Santos de Neymar, o Boca de Riquelme e o Chelsea do dinheiro. Ano em que conquistamos a América e o mundo. O mesmo mundo que, ironicamente, acabaria em 2012, assim como deveria ter findado em 2000. Conclusão lógica: sempre que o mundo está para acabar, fica tão feliz com a vitória do Corinthians que continua a existir. Somente um todo-poderoso para adiar o apocalipse.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Foi, Curintcha!

Antonio Prata



Das coisas mais bonitas que eu já vi: em Yokohama, Japão, do outro lado do mundo, um frio de bater queixo e o estádio apinhado de corintianos. Tudo preto, tudo -só com muita dificuldade se via, aqui e ali, esparsos smurfinhos do Chelsea.

Nem parecia que estávamos a 18.576 km do Pacaembu.

As faixas tomavam 360º do anel entre as arquibancadas: Fiel Capão, Guarulhos, Camisa 12, Tatuapé, Fiel Leme, Coringão Chopp, Fiel Morato, Curitiba, Fiel Cachoeira, Vila Moraes, Fiel Centro, Suzano, Fiel Soro-caba, Pavilhão 9, Cohab 5, Fiel Praia Grande, Taboão da Serra -e, não podemos deixar de mencionar, "Minha mulher deixou!", o que dá uma ideia da delicada situação conjugal que, em milhares de lares brasileiros, com o orçamento curto, ainda devendo prestação da TV e da geladeira, a decisão de passar uma semaninha no Japão deve ter criado.

Pois a mulher deixou, 30 mil mulheres deixaram, 40 mil, 50, jamais saberemos (tem que contabilizar os solteiros, também...): neguinho vendeu o carro, pegou empréstimo no banco, parcelou em três gerações, descolou casaco com o tio, ceroula com o primo, a avó tricotou a luva e cada corintiano presente no estádio fez valer o dinheiro, a paixão e o esforço que os trouxe até aqui.

Das coisas mais bonitas que eu já ouvi: em Yokohama, Japão, do outro lado do mundo, num frio de bater queixo e a torcida cantando, sem parar um único segundo: "Vamos, vamos Corinthians...", "Aqui tem um bando de louco!", "Timão ê ô", sem falar na vaia que ecoou pelo Oriente quando o Chelsea entrou para aquecer, uma vaia colossal, acachapante, digna de crônica do Nelson Rodrigues, que ainda estará zunindo nos tímpanos daqueles pobres e desolados bretões em seus últimos instantes sobre a Terra.

E não é que funcionou?

Como em raras vezes na vida, tudo deu certo. A torcida empurrou, o time respondeu, goleamos por 1 a 0. Torres foi anulado pelos peões -e, a essa hora, deve estar indo levar saudações alvinegras à rainha. David sumiu, sob o Golias corintiano. Oscar não deu nem pra Quiquito.

E Hazard, que em inglês quer dizer "perigo", se tiver um pingo de vergonha na cara, assim que pisar em Londres vai correndo a um cartório mandar botar um "No" antes de seu nome.

A equipe do Corinthians venceu pelo conjunto, mas dois jogadores merecem destaque. Cássio, que fechou o gol e levou merecidamente a Bola de Ouro (embora Muro de Ouro fosse o correto) e, claro, Guerrero. Que coisa mais óbvia e mais acertada, dessas que fazem a gente desconfiar, às vezes, que tem alguém nas coxias trabalhando no roteiro: um time que foi criado em 1910 por um cidadão chamado Bataglia conquista o mundo com um Guerrero. Melhor, impossível.

Foi, Curintcha!


Publicado na Folha de S.Paulo, em 17/12/2012.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Doze é o número da sorte

Juca Kfouri





Para quem ficou, valeu ver Walter Casagrande Júnior com lágrimas nos olhos quando o Corinthians entrou no gramado em Toyota saudado com o alarido que se ouve normalmente no Pacaembu.

Ele lembrou do Doutor Sócrates, que, outro dia mesmo, estava aí com todos nós e, comovido, sacou como justificativa para torcer pelo alvinegro a hipótese de o Corinthians ser o Brasil no Mundial da Fifa, embora ele saiba que o Corinthians é o Corinthians em qualquer lugar do mundo e em qualquer torneio de que participe.

E só ele leva tanta gente dele, a Fiel, verdadeira camisa 12 do Timão.

Nem por isso o comentarista da Globo deixou de opinar que o Al Ahly mereceu o empate pelo que fez no segundo tempo -ou pelo que o Corinthians não fez na etapa final.

Talvez ele esteja certo, embora a superioridade alvinegra nos primeiros 45 minutos, principalmente na meia hora inicial, até o gol de Guerrero completando a trivela de Douglas, tenha sido mais marcante que a egípcia depois.

Só mesmo quando Aboutrika entrou o campeão africano criou chances de gol, uma de fora da área, como Douglas tivera no começo do jogo, e outra pela direita, quando Cássio fechou o ângulo providencialmente para evitar o empate.

Para chegar, 12 anos depois, a mais uma final do Mundial de Clubes da Fifa, o Corinthians precisou superar o jogo do vexame, o que se diz semelhante a bater em bêbado, apesar de não ser, apesar de nunca ter sido.

Vencida, também, a ansiedade da estreia, é de esperar que o Corinthians, o mais italiano dos times da América do Sul, segundo Diego Armando Maradona, jogue no domingo um outro jogo, com outro futebol, responsabilidades divididas com o rival, seja o favorito Chelsea, seja o mexicano Monterrey.
Chelsea que, além da vantagem do investimento sem limites, enfrenta o frio com absoluta naturalidade, coisa que não acontece com nenhum dos outros três semifinalistas.

Melhor para o Corinthians será mesmo pegar o time londrino, como foi melhor enfrentar o Boca Juniors na decisão da Libertadores, desafio de gente grande.

Já os mexicanos não só estão longe de serem vistos como gigantes como, para piorar, têm vencido os brasileiros tanto nos jogos das seleções principais como na final olímpica, na Londres do Chelsea.

Para terminar, voltando ao começo, creio não ser nenhuma traição reproduzir uma mensagem escrita que recebi em meu telefone no dia da final com o Boca e que guardei, por reveladora: "Vou te falar uma coisa. Eu parei em 94 e nunca mais senti vontade de jogar. Mas como eu gostaria de entrar em campo nesta quarta. Olha Juca, eu posso até ser demitido. Mas não vou me violentar. Vou torcer muito".

Preciso dizer quem foi o autor da mensagem?


Publicado na Folha de S.Paulo, em 13/12/2012.

domingo, 9 de dezembro de 2012

Que saudade, doutor

 
Xico Sá

 
 
 
Amigo torcedor, amigo secador, nesta semana fez um ano que o doutor Sócrates partiu. Não careço de efeméride alguma para celebrar, todo dia, toda noite, a memória do velho camarada. O momento, porém, tingido em branco e preto, é especial e comoveria o Magrão.
É, doutor, o bando de loucos, como você bem conhece, invadiu o Japão. Como na música do Gil, meu velho, teve corintiano que viajou até no cargueiro do Lloyd lavando o porão. Se oriente, rapaz, a festa começou em Cumbica e talvez não pare nem mesmo com o anunciado apocalipse que se aproxima.
Outra coincidência da semana, Magrones, é que o teu chapa Oscar Niemeyer também se foi. O último dos bravos comunistas, sempre motivo dos teus brindes, está chegando aí. Sei que vais tirar onda e dizer que estou sempre dando notícias velhas, que estou mais enferrujado do que minha última Remington.
Ah, Magrão, não zoa, mas realmente nada mudou muito depois que partiste. Aqui na terra estão jogando futebol, tem muito samba, muito choro e rock'n'roll, mas nada de novo debaixo do sol dos homens, meu camarada, como diriam o Eclesiastes e o teu amigo Chico.
Sabe quem saiu da CBF, Magrão? Acredite: o Ricardo Teixeira, teu ídolo (rs) para não dizer o contrário. O bom é quem entrou: o José Maria Marin, doutor, pode crer. Aquele mesmo cupincha da ditadura.
Mil desculpas, velho camarada, mas nada mudou neste último ano, embora o deputado Romário (PSB-RJ) insista em uma CPI para investigar os podres da CBF. O Juca, porém, continua cutucando os homens com sua caneta afiada, não para. O prezado amigo Afonsinho, aquele bom papo de sempre, agora escreve no espaço que ocupaste na "Carta Capital", tem repetido a categoria dos tempos de Botafogo.
Não zoa, notícia velha um cacete. Agora vou te contar uma nova. O Mano caiu, no momento mais errado do mundo -se é que tem tempo certo para queda- e o Felipão assumiu o comando da canarinha.
Foi mal, Magrão, esta bola tu cantaste há séculos. Essa, porém, é novíssima: os estádios para a Copa do Mundo estão em um atraso miserável (rs). Mais uma: a Fifa tende a proibir a venda de acarajé nos arredores da Fonte Nova durante o Mundial de 2014. Sério, Magrones, essa é braba, confesse.
Sabes quem está na bancada do nosso "Cartão Verde", doutor? O Rivelino, com um bigode de deixar teu ídolo Nietzsche com inveja, e o boa-praça Celso Unzelte, este sim um jornalista competente. Pasme, Magrão, o Vitor Birner aderiu ao futebol-arte. Um poeta. O velho Mussa, como chamavas carinhosamente o Vladir Lemos, continua o mais civilizado dos mediadores.
Fazes muita falta, doutor, e sempre cantamos para ti aquela seresta do Sérgio Bittencourt: "Naquela mesa tá faltando ele / e a saudade dele está doendo em mim".
 
Publicado na Folha de S.Paulo, em 08/12/2012.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

À espera do número 257

Antonio Prata


Eu, no ano da graça de 1977, com apenas 49 dias de idade, vendo do berço o chute do Vaguinho explodir no travessão, Wladimir tentando de cabeça, Oscar salvando em cima da linha, Basílio pegando o segundo rebote e finalmente balançando a rede da Ponte Preta, acabando com quase 23 anos de sofrimento e me ensinando que a vida é dura, estranha, às vezes a coisa embanana ali na zona do agrião, mas no fim tudo pode dar certo; flashes do Pacaembu, poucos anos mais tarde, no colo do meu tio --cavalos, bandeiras, rojões--; o bigode do Zenon, o respeito imposto por aquele bigode, estendido a todos os bigodes subsequentes; o uniforme de goleiro igual ao do Carlos, ganho no Natal --e todas as vezes em que eu gritei "espaaaaaaalma Carlos!", jogando bola na rua ou no recreio, durante a infância--; a trave de madeira que meu avô fez para mim; Casagrande e Sócrates subindo ao palco num show da Rita Lee; meu pai pisando de leve no meu pé e piscando, no meio da torcida do Guarani, quando o Biro-Biro fez o gol lá no Brinco de Ouro da Princesa, em 1984; a agonia da final de 88, contra o mesmo Guarani, até o momento em que um moleque chamado Viola dá um carrinho de ninja, se estica todo e, com a ponta da unha do dedão, salva a pátria; eu, o Luiz e o pai dele numa Brasília estacionada num pasto, em algum lugar do Mato Grosso, tentando sintonizar o rádio para ouvir um Corinthians e São Paulo; o trator rebocando a Brasília atolada no pasto, duas horas mais tarde; o Nirlando, meu padrasto, me ensinando com sua agonia a dimensão trágica das batalhas ludopédicas; Kalunga, nome de um quilombo de bravos guerreiros, descendentes de negros e índios; a descoberta tardia da Democracia Corintiana, o orgulho pela Democracia Corintiana; eu, o Badá, o Miguel, o Perê, o Turco e o Binho subindo a Rebouças a pé, em 95, gritando "É campeão!", junto a um rio de gente, acreditando na concórdia entre as classes, as raças e religiões; eu, o Binho e o Perê às três da manhã, naquela mesma noite, na Paulista, fugindo de cinquenta corintianos, depois que um cara roubou o gorro do Binho e gritou "pega os são-paulinos!", nos mostrando que era preciso mais do que o futebol para superar as mazelas nacionais; Wladimir reunindo os garotos da rua, pegando meu primo pela mão e o levando para jogar bola, no dia em que o meu tio morreu; minha admiração por esse ato de generosidade e grandeza; a falta que faz meu tio-- são algumas das coisas que passam por minha cabeça quando o número 257 aparece no luminoso do Consulado Geral do Japão e me dirijo ao guichê para tirar o visto.

Publicado na Folha de S.Paulo, em 06/12/2012.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Lista dos 23 jogadores do Corinthians que disputarão o Mundial da FIFA 2012

Sport Club Corinthians Paulista

DEPARTAMENTO DE FUTEBOL PROFISSIONAL

ATLETAS INSCRITOS

Mundial de Clubes FIFA 2012

1
Julio Cesar Julio Cesar de Souza Santos
2
Alessandro Alessandro Mori Nunes
3
Chicão Anderson Sebastião Cardoso
4
Wallace Wallace Reis da Silva
5
Ralf Ralf de Souza Teles
6
Fábio Santos Fábio Santos Romeu
7
Martínez Juan Manuel Martínez
8
Paulinho José Paulo Bezerra Maciel Junior
9
Guerrero José Paolo Guerrero Gonzales
10
Douglas Douglas dos Santos
11
Emerson Marcio Passos de Albuquerque
12
Cássio Cássio Ramos
13
Paulo André Paulo André Cren Benini
15
Anderson Polga Anderson Corrêa Polga
20
Danilo Danilo Gabriel de Andrade
21
Edenilson Edenilson Andrade dos Santos
22
Danilo Fernandes Danilo Fernandes Batista
23
Jorge Henrique Jorge Henrique de Souza
26
Guilherme Andrade Guilherme Andrade Silva
28
Felipe Felipe Augusto de Almeida Monteiro
29
Giovanni Giovanni Piccolomo
31
Romarinho Romário Ricardo da Silva
35
Guilherme* Guilherme dos Santos Torres* ou 17 Willian Arão Willian Souza Arão da Silva

Definidas as equipes que participarão do Mundial da FIFA 2012

Estão definidas as sete equipes que participarão do Mundial de Clubes da FIFA, a ser disputado em dezembro.

O adversário do Corinthians na semifinal, dia 12/12/12, sairá do confronto entre o japonês Sanfrecce Hiroshima (campeão do país-sede), o australiano Auckland City (campeão da Oceania) e o egípcio Al Ahly (campeão da África).


segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Sangue Corinthiano

No último sábado, dia 10 de novembro, foi realizada mais uma edição da campanha Sangue Corinthiano, para doação de sangue.

Para informações sobre a campanha, entre no site www.sanguecorinthiano.com.br



Os corinthianos João Felício Quirino e Éder Menegassi 

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Mundial da Fifa 2012

O Corinthians vai pegar o campeão japonês, da Oceania ou o campeão africano nas semifinais do Mundial da FIFA 2012:



http://pt.fifa.com/clubworldcup/index.html

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Ruço: um guerreiro, um típico ídolo corintiano

Marcelo Monteiro      


A torcida do Corinthians tem como ídolos jogadores conhecidos pela técnica. Casos de Sócrates, Neto e Marcelinho. Mas a Fiel também idolatra atletas que, se não eram um primor no quesito habilidade, mostravam com a camisa corintiana uma disposição cativante. Casos de Biro-Biro, Taborda, Ezequiel e…Ruço. Campeão paulista em 1977, o ex-meio-campista faleceu neste domingo, aos 63 anos, vítima de um AVC.
Carioca, nascido em 3 de junho de 1949, José Carlos dos Santos chegou ao Parque São Jorge em 1975, contratado junto ao Madureira. Estreou em 1º de fevereiro, contra o San Lorenzo (Argentina), em duelo pela Copa São Paulo. Vitória corintiana por 1 a 0.
Em 5 de novembro de 76, entrou para a história do Corinthians em uma das partidas mais marcantes da centenária trajetória do Alvinegro. Coube a ele, que tinha a média de um gol a cada dez jogos (22 em 201 jogos pelo clube), a honra de balançar a rede na partida contra o Fluminense, na semifinal do Campeonato Brasileiro. Quando um número estimado de 70 mil corintianos ocupou o Maracanã, dividindo as arquibancadas com os tricolores. O jogo que entrou para a história como a “Invasão corintiana”.
E, em um jogo especial, o gol também foi especial. Um gol de meia-bicicleta. O volante comemorou no seu estilo: mandando beijos para a torcida. Comemoração que lhe valeu o apelido de “beijinho doce”. E, após o empate de 1 a 1 no tempo normal, ainda converteu sua cobrança na disputa de pênaltis, sendo decisivo para a equipe chegar à decisão contra o Internacional.

sábado, 4 de agosto de 2012

É o amor que floresce de criança

Éder Menegassi


Herdar o time de coração do pai é coisa incerta, ainda que verifiquemos o fenômeno ocorrendo às  pencas mundo afora. Mas essa é matéria obscura, primeiro porque a escolha pelo time que se vai torcer nem sempre vem do coração, há fatores externos que influenciam e muito. Segundo porque, se vem do coração, não teria que se falar em escolha; saltaria aos olhos tal qual o sorriso da mãe, a cor dos olhos da avó, ou seja, seguiria as feições determinadas pela genética.

Para não privilegiar a Teoria da Evolução das Espécies e, assim, evitar polemizar sobre a eterna dicotômica criação do universo, eu diria que todo torcedor deveria nascer fadado a se dedicar ao time que lhe coube à graça divina, inclusive Ele. Deus é Fiel. É nóis, mano.

Luquinhas tem 6 anos e essa decisão parece iminente. Por influência da avó materna ele se disse são paulino por algum tempo, coisa que, claro, nunca me arrancou um sorriso mas que contra a qual eu nunca lutei, justamente por acreditar no que acabei de dizer acima. Quando amigos e familiares, numa tentativa infrutífera de me fazer aceitar contrariado essa situação, pensava comigo mesmo: quero um  corinthiano legítimo, então, se ele for mesmo corinthiano, isso vai passar, é coisa de criança.
Qual não foi minha surpresa, certo dia em meados de junho, na semana do jogo contra o Santos, quando o pequeno se dirigiu a mim e afirmou, "pai, agora eu sou corinthiano". Foi o gol mais lindo do Corinthians. Comemorei como se estivesse no estádio e enfrentássemos um jejum de 23 anos sem títulos.

Eu, que até então havia marcado presença em todos os jogos do Coringão no Paca, pela Libertadores, decidi imediatamente que o próximo jogo assistiria ao lado dele. E assim o fiz. No final, vaga garantida. Ele viu um Corinthians guerreiro. Ele não viu motivo algum para torcer pelo Santos de Neymar. Ele viu um bairro em festa. Ele se viu feliz por ser corinthiano.

A decisão dele veio antes do título. Com a taça na mão, ele se sentiu um pouco mais feliz. Ele se sentiu orgulhoso.

O título da Libertadores não é a maior conquista de todos os tempos. O rebaixamento não é a maior derrota. Sua maior conquista é ser Corinthians, sua maior derrota seria(á) negá-lo. Sob qualquer aspecto, sob qualquer circunstância.

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Apito sinfônico

Antero Greco




A zoeira na cabeça não passou. Ainda estou com os ouvidos zunindo por causa dos rojões, do buzinaço e dos “Vai, Corinthians!” que vararam a madrugada de ontem. Pra ser exato, escrevo esta crônica no fim da tarde… e não é que tem foguetório e fom-fom-fom por aí? Nem se trata de congestionamento; é de festa corintiana mesmo. Por sinal, muito justa.

Vi e revi os melhores momentos do jogo com o Boca, já sei de cor e salteado todos os movimentos dos dois gols do Emerson, li tudo quanto é coluna de jornal, blogs e comentários postados nas redes sociais. Estou por dentro dessa final especial da Taça Libertadores e imagino como objetos que fizeram parte do jogo épico vão se transformar em peças de história e museu. Muitos que estiveram no Pacaembu provavelmente guardarão algo como lembrança.

Sabe o que valeria a pena ter como símbolo dessa noite de quarta-feira dos milagres? O apito. Sim, senhor, a latinha assoprada por Wilmar Roldán talvez seja de origem ignorada, pode ter sido produzida no interior da China, de material vagabundo. Não importa. Ela fez ecoar o som mais lindo da vida de muito alvinegro. O colombiano não tem ideia do valor do gesto rotineiro de soltar o ar dentro daquela caixinha de repercussão, naquele momento, naquele lugar.

O prrrriiiiii! que se fez ouvir no Pacaembu, por volta das 23 e lá vai fumaça do 4 de julho de 2012 teve o impacto de uma sinfonia de Beethoven, uma cantata de Bach, uma sonata de Mozart. O som estridente valeu por uma orquestra de câmara. Não, não, é pouco. Foi o equivalente a uma filarmônica, daquelas grandiosas, de Berlim, Londres, Viena. E o regente foi o latino Roldán, elevado a um Von Karajan dos gramados.

Se pudesse, não pegaria a camisa de algum jogador, nem a bola do jogo, muito menos a rede do gol do tobogã. Entrava no campo, ajoelharia diante do árbitro e lhe imploraria ter o apito como souvenir. Pagaria o que pedisse. Se não fosse convincente, arrancava da mão dele, saía correndo, saltava o alambrado e saía assoprando noite adentro. Por questão de consciência, tentaria encontrar o endereço do juiz e mandaria uma cópia de prata, de ouro, de diamante!

Esse apito ficaria num pedestal, dentro de uma redoma e com sistema de alarme em volta. Proibida qualquer aproximação mais atrevida. Visitas seriam permitidas, só para dividir com amigos e parentes o orgulho de ter recordação mais preciosa do dia em que o Corinthians ganhou a América. Com uma ressalva: ninguém botaria a mão no apito. Só deveria ser cobiçado, a distância segura, e nada além disso.

Mas, em ocasiões especiais – quem sabe no fim do ano, após a vitória sobre o Chelsea, no Japão? -, sairia de lá para ser lustrado e, num gesto de carinho, levaria um soprinho de leve. Dengosamente, soaria o prriii bem suave, manhoso, que traria de volta a explosão de alegria ensurdecedora de uma linda noite de inverno.

Daí, assopraria um monte de vezes, sem parar, com as mãos regendo uma sinfônica imaginária. Os vizinhos, só os corintianos, entenderiam e aplaudiriam. Com lágrimas nos olhos. E com inveja do dono do apito.


Publicado em O Estado de S.Paulo, em 06/07/2012.

Explosão popular

Eduardo Maluf


Cinthia Inoue é advogada, tem 32 anos, não perde jogo do Corinthians por quase nada. Anteontem, esteve no Pacaembu para ver de perto o momento mais importante da história de sua equipe. Embora descendente de japoneses, nunca foi à Ásia. Agora providencia o passaporte para assistir de camarote ao desfile corintiano no Mundial de dezembro. O "Timão" lhe dá o empurrão que faltava para ir atrás de algo em que nunca havia pensado mais seriamente: conhecer sua origem, a terra dos avós, bisavós...
A jovem apaixonada por futebol e pelo Alvinegro simboliza o poder desse jogo e a força do clube radicado no Parque São Jorge, mas seguido por gente de todas as partes do País. Poucas vezes na vida eu havia acompanhado manifestação popular tão grande como a dos últimos dias em São Paulo. Amigos e familiares corintianos se reuniram em casas, bares e restaurantes para torcer pelo inédito título da Libertadores. Amigos e familiares não-corintianos se juntaram para torcer contra. Até quem não enxerga muita graça nisso tudo ligou a TV, e a Globo alcançou audiência das mais expressivas.
O futebol é o mais emocionante e popular esporte do planeta por ser o menos lógico entre todos. Ou o leitor imaginaria que um goleiro desconhecido até outro dia seria um dos heróis do triunfo? Que um baixinho vindo do Bragantino há poucas semanas faria um gol incrivelmente decisivo no estádio mais famoso da América do Sul em plena final da competição? Que um dos resultados mais importantes para o título continental seria justamente uma derrota marcante?
Que derrota, se o Corinthians foi campeão invicto? O tropeço contra a Ponte Preta, nas quartas de final do Paulistão, no Pacaembu, abriu o caminho para a glória. Livrar-se desse campeonato de segunda linha (involuntariamente, é verdade) ajudou o time a concentrar a atenção apenas na Libertadores. O Santos ganhou o Estadual (que nada acrescentou à sua história), comemorou demais, perdeu o foco e caiu na disputa que de fato tinha valor.
O Corinthians não dá espetáculo. Mas joga com humildade, os jogadores são solidários em campo, a equipe tem organização tática e a defesa dá aula de seriedade. Santos e Vélez, para mim, eram os times com mais potencial técnico da Libertadores. Não foram, contudo, capazes de comprovar a força na prática. A taça acabou no Parque São Jorge com justiça. E, agora, essa história de clube regional chega ao fim. O Corinthians é também internacional.
Desde o ano passado, quando se encaminhou para o título brasileiro, tenho dito que a equipe só conta com um craque, e não dentro de campo. Tite é o principal nome do clube. Muitos discordam, alegam que o treinador implantou futebol exclusivamente de resultados. Com o elenco que tem nas mãos, fez o que poderia, extraiu o máximo de cada atleta. Mais do que isso seria impossível. Se eu fosse o presidente do Corinthians, mandaria fazer uma estátua para Tite no Parque São Jorge.

Publicado em O Estado de S.Paulo, em 06/07/2012.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

CORINTHIANS CAMPEÃO DA LIBERTADORES 2012

O maior dos campeões

Juca Kfouri



Campeão invicto, o Corinthians se iguala ao Santos de 1963, embora Pelé & cia tenham jogado apenas quatro jogos --uma vitória e um empate com o Botafogo, sem Mané Garrincha, e duas vitórias sobre o Boca Juniors.
Agora, só sete clubes ganharam sem derrota --e desde 1978 que a façanha não era atingida.
O Corinthians, como se sabe, disputou e não perdeu nenhum dos 14 jogos. E deixou pelo caminho o Vasco campeão de 1998, o Santos tri e o Boca hexa. Certamente este time corintiano não é o melhor dos campeões brasileiros na Libertadores, mas se tornou o maior deles.
Porque o Santos de Pelé, o Cruzeiro de 1976, o Flamengo de Zico, o São Paulo de Telê Santana e Raí, o Palmeiras de Felipão e Alex, o São Paulo de Paulo Autuori e Rogério Ceni de 2005 e o Santos de Neymar no ano passado tinham times melhores, assim como o bicampeão Inter era do mesmo nível e por aí afora.
Verdade que o Grêmio, em 1983, também superou três campeões: Flamengo, Estudiantes e Peñarol. Que o Vasco, em 1998, passou por Grêmio, Cruzeiro e River Plate.
Que o Palmeiras, em 1999, derrotou Olimpia, Vasco e River Plate.
E que o Santos, no ano passado, eliminou Colo-Colo, Once Caldas e Peñarol.
Mas o Corinthians venceu campeões maiores, que somam dez títulos --e invicto o dobro de jogos dos maiores invictos.
Sim, o próprio Corinthians, com times superiores, não conseguiu ganhar no começo do século, o que apenas aumenta a façanha deste time que Tite conduziu com serenidade.
Oswaldo Brandão e Basílio, em 1977; Nelsinho Baptista e Neto, em 1990; Osvaldo de Oliveira e um timaço em 2000 têm agora companhia ilustre e cada um escolherá o seu herói.
Ralf que fez o gol do empate no último minuto na estreia e evitou uma crise.
Paulinho que fez no Vasco e roubou de Riquelme. Emerson e Danilo que despacharam o Santos.
Romarinho!
Cássio, Chicão e Leandro Cástan, todos que permitiram ao Corinthians sofrer tão poucos gols.
E a Fiel, é claro, que mais uma vez transbordou num Pacaembu que está se despedindo da vida do Timão, mas que entrou em sua história no IV Centenário de São Paulo, em 1954, sob a batuta de Cláudio, Luizinho e Baltazar para sair em grande estilo quase 60 anos depois.

Publicado na Folha de S.Paulo, em 05/07/2012.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

A noite dos milagres

Antero Greco



Gosto de música brasileira e italiana, por razões culturais, familiares, afetivas. As duas escolas me encantam e inspiram. Pois acordei ontem com uma canção muito bonita de Lucio Dalla, carismático compositor bolonhês que morreu em março e que já citei em crônicas anteriores. Desde que botei os pés fora da cama, fiquei a cantarolar versos de La Sera dei Miracoli, sucesso dele nos primeiros anos 1980 que fala de uma noite especial, mágica, em que milhares de pessoas se agitam, correm de cá pra lá, à espera de fatos extraordinários.

Assim está São Paulo nos últimos dias. Paira no ar da cidade expectativa fora do comum pela partida final da Taça Libertadores, e a ansiedade se torna tão densa que parece palpável como a poluição. O torcedor do Corinthians mal dorme, à medida que se aproxima a possibilidade de ver realizado o sonho de conquista da América. Não é por acaso que oportunistas descaradamente oferecem ingressos (sabe-se lá se verdadeiros) a preços equivalentes ao de carro de luxo ou de pequeno apartamento.

O segundo duelo com o Boca Juniors é tema dominante em qualquer lugar. Vê lá se alguém perde tempo em discutir se a seleção da Espanha de hoje é melhor do que a do Brasil tricampeão do mundo em 1970. Isso é papo de gringos eufóricos e lambuzados com mel ao qual não estavam acostumados. Só terá sentido no dia em que ostentarem cinco títulos mundiais e um Pelé como astro.

O negócio que interessa por aqui é saber se Alex, Danilo, Emerson vão derrubar o multicampeão que vem da Argentina. As apostas giram em torno do placar e, mais do que isso, da possibilidade de Romarinho entrar de novo e decidir no Pacaembu, como aconteceu na semana passada em La Bombonera. Ou alguém duvida que aquele gol de empate teve significado equivalente ao de vitória?

Alvinegros se apegam ao novo talismã para reforçar a esperança; os anticorintianos se aferram aos estragos que, em edições passada, esses hermanos provocaram em Cruzeiro, Palmeiras, Santos e Grêmio, suas vítimas em decisões. E lembram que o Boca gosta de festejar nestas bandas. Vale qualquer coisa para secar e irritar a turma da Fiel.

O otimismo de uns e outros não é fora de propósito. O Corinthians tem a seu favor torcida, uma casa acolhedora, um sistema tático que funciona, jogadores maduros o suficiente para não perderem os nervos em situações extremas. Mostraram isso em todas as fases da Libertadores. (A exceção foi Emerson, expulso contra o Santos, na Vila.) O Boca conta com o pedigree vencedor, com a experiência de gente como Orion, Schiavi, Riquelme, apesar de ser sombra do timaço do início do século.

Se partirmos do pressuposto de que a decisão ocorrerá apenas dentro de campo – e assim espero que seja –, o Corinthians levanta o troféu se for fiel a sua estratégia de marcar forte na frente, de ser econômico porém letal nas oportunidades de gol que cria, se não ceder à sofreguidão de seus fãs. E se anular o maestro Riquelme, ainda fundamental para o Boca.

O momento exige a conciliação de duas posturas aparentemente conflitantes: a paixão (na entrega dos jogadores, na disputa por qualquer bola) e a razão (na paciência diante de um rival igualmente capaz). O Corinthians tem um aliado adicional, pelo menos em comparação ao jogo de uma semana atrás: a condição física melhor. O Boca travou nos últimos 15 minutos. Detalhe a ser considerado, sobretudo em eventual prorrogação.

Mas está com jeito de “noite dos milagres”, e só em 90 minutos. Amém.


Publicado em O Estado de S.Paulo, em 04/07/2012.

terça-feira, 3 de julho de 2012

Bola no chão

Paulo Vinícius Coelho


O empate na Bombonera impediu reflexões sobre a maneira como o Corinthians jogou a primeira partida das finais da Libertadores. O time não marcou por pressão, como Tite pretendia - ou pelo menos afirmou ser sua intenção. Esse não foi o maior pecado.
O Corinthians jogou uma final como se joga, com raça. Ou quase. Porque além de raça, é preciso ter cabeça no lugar e bola no chão. Reveja a atuação de Alessandro, um dos mais seguros da defesa. A cada susto, bola pro mato.
No lance do gol de Romarinho houve o acerto. Antes, o excesso de chutões, para impedir a presença do Boca Juniors perto do gol de Cássio.
Quando Paulinho colocou a bola no chão, o Corinthians chegou. Foi assim aos 7 minutos, tiro de meia distância dele, bola espalmada por Orión. Foi assim principalmente na jogada de Paulinho e Émerson, do gol de Romarinho.
Quando o Corinthians rifou a bola, chamou o Boca para seu campo, risco que não deve correr na quarta-feira. Com bola no pé, o Boca procura Riquelme e este vai atrás do espaço vazio. No segundo tempo, jogou às costas de Ralf, entre o volante e o lateral Fábio Santos. Armou todas as jogadas.
Quarta-feira, o Corinthians tem dois caminhos. Se mesclar a raça da Bombonera, com marcação pressão - sua melhor característica - e paciência para sair da defesa para o ataque com bola no pé, o Corinthians será campeão da Libertadores. Se deixar o Boca trocar passes, como no segundo tempo de Buenos Aires, corre o risco de perder. Em vez de bola pro mato, porque o jogo é de campeonato, a receita é bola no chão, para ser campeão.



Publicado em O Estado de S.Paulo, em 02/07/2012.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Sim, nós podemos!


João Felício Quirino

É comum ouvir que ser corinthiano é ser sofredor, apaixonado, louco, coisas do tipo. O torcedor mosqueteiro, pelo menos o típico, é fanático, chato até. Há, entretanto, uma característica do corinthiano não tão comentada: ser corinthiano é também ser odiado. Com a mesma força com que sentimos nosso coração bater mais forte pelo Timão, notamos a bílis escorrer pela boca de são-paulinos, palmeirenses e santistas quando o escudo do alvinegro de Parque São Jorge lhes é apresentado.
Sei que hoje e na próxima quarta, dia 4/7, os corinthianos estaremos vidrados, torcendo pelo fim (enfim!) da nossa obsessão pela conquista da América. Ao mesmo tempo em que os arquirrivais estarão vidrados na “secação”, rezando para que não se perca para sempre a piada da Libertadores mosqueteira só no playstation.
A forma mais comum de se odiar os corinthianos – e, por tabela, o Corinthians – é o menosprezo. Visto do pedestal pelos rivais, somos taxados de favelados, analfabetos, pobres, desdentados, negros, ladrões (sem preconceito, claro!), enfim, de formas pejorativamente associadas ao homem do povo. Ser popular, “do povão”, contudo, é para nós motivo de orgulho, jamais de vergonha.
Outros “argumentos” nos são despejados nesse discurso elitista de quem come sardinha e arrota caviar. Eles, sim, têm casa, enquanto nós moramos na “Marginal sem número”. Eles, sim, têm glórias: campeões mil vezes, detentores das taças mais importantes, conquistadas por escretes mágicos, por academias, por gênios como Ademir, Raí e o maior de todos, o rei Pelé. Já nós, somos lembrados pelos times de “faz-me rir”, pelos tabus, jejuns, rebaixamentos e obsessões da vida. Para eles, de nada valem nossos Sócrates, Rivellinos e Marcelinhos, nossas democracias e invasões. Nossos gols são impedidos; nossos pênaltis, roubados; nosso Ronaldo é mais gordo. Até nosso Mundial, ao contrário dos deles, é fajuto.  
Por mais fortes e obstinados que sejamos os corinthianos, é certo que tamanho menosprezo, somado aos sofrimentos de costume, levam a, no mínimo, um abalo na auto-estima. Diante desse quadro – todos contra o Corinthians! –, apesar de nos sentirmos realmente especiais, acabamos por vezes sucumbindo à cilada derrotista. Esquecendo das tantas taças e superações do passado – 1977, 1990, 2000, 2008, entre outras –, só nos vêm à mente as frustrações vividas: o gol do Vagner Love, a defesa do Marcos, os sofrimentos que não se tornaram vitórias na undécima hora, como, dizem, é do nosso gosto. Dessa forma, o corinthiano mais simples acaba por acreditar, embora com ressalvas, na máxima dos coirmãos travestidos de Caim: “Essa Libertadores não é mesmo para nós...”
Mas nada como uma vida centenária, nada como o jogo jogado por tanto tempo! Penso que, quando do rebaixamento, o Corinthians viveu seu “momento Scarlett O’Hara”: determinou a si mesmo que nunca mais passaria por tamanha mazela. De Mano Menezes a Tite – a fase gaúcha do Timão –, o time voltou à Série A, venceu Paulista, Copa do Brasil e Brasileirão. Como se não bastasse, está de malas prontas para a casa própria em Itaquera, sede da abertura da Copa do Mundo de 14. Coroando a nova era, reafirma-se altaneiro e chega à sua primeira final de Libertadores. E não se trata de uma Libertadores, mas DA Libertadores: passou pelo Vasco,  vice-campeão brasileiro, pelo Santos, time de Neymar e atual campeão do torneio, culminando na final, até aqui invicto, para encarar o argentino Boca Juniors: bicho-papão da América, clube do semi-deus Maradona e onde joga o cracaço Riquelme. Épico, lendário, para dizer o mínimo!  
Tite montou uma equipe aguerrida, muito bem entrosada, sabedora de suas funções e objetivos. A partir de um elenco apenas razoável, fez um conjunto invejável, duro de ser batido. Mas o grande mérito desse time não é técnico ou tático, e sim, psicológico: a partir de um time seguro, o torcedor trocou a obsessão de outrora por uma confiança que nem as pechas dos arquirrivais está sendo capaz de abalar.
Assim chegamos ao dia de hoje. Depois de tantas amarguras, a escalada ao topo do futebol fez com que nós, corinthianos, eternos sofredores, tenhamos a convicção plena de cravar: “Sim, nós podemos!”. Qual Obamas brasileiros, negros outrora relegados a posições menores, gente a quem não cabia sonhar, passamos a duvidar e a tornar nossos sonhos realidade.
Claro, respeitaremos o Boca e sua tradição, mas não nutriremos sentimento de medo. Caso nos venham com a história de seis taças levantadas, reforçada com a velha ladainha dos arquirrivais, responderemos com a simplicidade de um povo que sofre, mas supera os obstáculos, e com a potência de um povo em ascensão:
“(Her) Mano, aqui é Corinthians!”.

Do chutão

Antonio Prata

Na última quarta, enquanto via o Corinthians passar heroicamente pelo Santos e chegar à sua primeira final de Libertadores, entendi a complexidade e a beleza sutil de uma jogada geralmente pouco valorizada pela crônica esportiva: o chutão.
Embora fracasso de crítica, poucos lances são mais aplaudidos pelo público, no estádio: a bola sobra próxima à área, o zagueiro vem em desabalada carreira e, com um botinaço sem dó nem rumo, a manda para a lateral, para a frente, para a linha de fundo, até, se for o caso: importante é isolá-la. O petardo é dado com uma convicção talvez só comparável à do maestro, no último movimento da batuta, ao final de uma sinfonia, à estocada mortal do toureiro, no cangote da besta arfante, à derradeira ondulação dos corpos no momento preciso do orgasmo. E, enquanto a bola segue sua trajetória rumo ao alambrado, à arquibancada, à rua, à lua e além, a torcida aplaude, vigorosamente.
O que, exatamente, aplaude a torcida? A eficácia da jogada? Não. Se assim fosse, maiores seriam as palmas quando o zagueiro domina a bola e a toca pro lateral, quando a lança para um centroavante e dá início a um ataque: afinal, é mais seguro para o time que se defende manter a bola nos pés que mandá-la para fora e a fazer voltar ao campo nas mãos do adversário.
Acontece que o futebol, embora bretão, não é 100% razão: o chutão, creio, é aplaudido menos por seu efeito prático do que por sua eficácia simbólica. Não é uma solução, mas uma declaração de princípios: aqui estou eu, pondo meu coração na ponta da chuteira, tão empenhado em vencer que, em vez de fazer o que seria mais inteligente, mais prudente, dominar e passar a bola, a enviarei para a Conchinchina. A torcida aceita o paradoxo -um cuidado tão grande que descamba pro descuido- e vibra.
Há na cultura do chutão algo de profundamente brasileiro e essencialmente corintiano. Assisti, por esses dias, a um ou outro jogo da Eurocopa. Poucos são os chutões e, quando há, jamais vêm acompanhados por palmas. Séculos sob a influência de Descartes, Kant e Maquiavel fazem com que o torcedor aplauda lançamentos longos, inversões de jogo, a tática, enfim, as vitórias do intelecto sobre o instinto, do treinamento sobre o falível corpo humano. A vitória do europeu é a vitória da lógica. Já para o brasileiro e, mais ainda, o corintiano, trata-se do contrário. País de traficantes, cativos e degredados, time de maloqueiros e sofredores, a vitória para nós é a coroação da improbabilidade, da reversão de expectativa. Não vencemos "por causa", vencemos "apesar de".
O chutão é, portanto, um ato de fé. A bola que sobe aos céus é uma humilde oferenda aos deuses, levando consigo todo nosso empenho, nossa devoção, levando a crença de que, apesar de nossas falhas e fraquezas, se dermos tudo de nós, as divindades descerão de suas altas moradas e nos auxiliarão com aquele gol de canela, no rebote do escanteio, aquele gol de barriga, aos 47 do segundo tempo; aquele gol tão corintiano, capaz de, por instantes, redimir nossa sofrida humanidade.
Que os deuses estejam conosco, esta noite. Vai, Curintcha! E bola pro mato, que é jogo de campeonato!

Publicado na Folha de S.Paulo, em 27/06/2012.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Romarinho, palestino?

Juca Kfouri


Romarinho nasceu em Palestina, pequena cidade do interior paulista de 11 mil habitantes, na rica região de São José do Rio Preto. Romarinho é quase palestino, não palestrino como você pode ter entendido inicialmente, embora, na verdade, ele seja é palestinense.
Comemorará 22 anos no dia que está previsto para o mundo acabar, no próximo 12 de dezembro, mas já tem seu nome registrado na história do velho dérbi paulistano. Jogou ontem como se fosse um veterano titular corintiano, embora fosse sua primeira partida nesta situação --e titular entre os reservas, numa aparente, mas só aparente contradição.
Fez um gol de letra para empatar o jogo ainda no primeiro tempo, quando seu time já merecia estar vencendo, mesmo depois de ser surpreendido pelo gol-relâmpago do Palmeiras, do amuleto Mazinho.
E o segundo, no segundo tempo, com a calma dos que sabem, belíssimo, digno de Pacaembu lotado e não com apenas 18 mil torcedores. Os corintianos não foram ao estádio pensando no Boca Juniors e num clássico esvaziado, pois se supunha que também os rivais se poupariam.
Mas o Palmeiras não tinha mesmo motivo para tanto, dada a distância da decisão da Copa do Brasil. E jogou com o que tinha de melhor para acabar se expondo ao vexame de perder para o rival com o time alternativo, maneira suave de se referir ao reserva.
Coisas da vida e do futebol. Deste futebol que cada vez mais valorizará os preparadores físicos, porque a moda de marcar na frente pega geral e, se não é nova, sempre foi vista como impossível de ser mantida durante os 90 minutos. Os técnicos desenham, e a preparação física terá de colorir.
A melhor notícia para os corintianos nem foi a primeira vitória no Brasileirão, de virada e em cima do rival mais tradicional. A melhor notícia foram três. A primeira, Romarinho, é claro, que parece predestinado a virar xodó da Fiel.
A segunda, Liedson, que jogou competitivamente durante todo o tempo e deu uma bicicleta que merecia ter virado gol, em vez de bater na trave e correr malandramente pela linha fatal. A terceira foi a volta, em grande estilo, do capitão do pentacampeonato brasileiro, Paulo André.
Pena que o zagueiro não esteja mais inscrito porque poderia ser útil na final da Libertadores. Tite vive o melhor momento de sua vida.

Publicado na Folha de S.Paulo, em 25/06/2012.

domingo, 24 de junho de 2012

O mais importante

Juca Kfouri
Os embates mais importantes da centenária história corintiana não serão os contra o Boca Juniors nas duas próximas quartas-feiras pela decisão da Taça Libertadores da América.
Os 180 minutos que definirão o campeão, serão, no máximo, considerados o terceiro confronto mais importante da vida do Corinthians.
Porque o mais importante, acreditem ou não as novas gerações, foi mesmo o de 1977, pelo Campeonato Paulista, que, então, era considerado mais relevante que o Campeonato Brasileiro. (Prova disso foi que, em 1979, Corinthians, São Paulo e Santos abdicaram de disputar o torneio nacional para se dedicarem ao estadual).
O que estava em jogo naquela decisão contra a Ponte Preta era o fim de um trauma que já durava mais de duas décadas, um sofrimento sem fim, uma verdadeira humilhação, que precisava acabar para parir uma nova era. Que veio. Algo que quem não viveu não é capaz de imaginar.
O segundo jogo mais importante foi o da decisão do primeiro Mundial de Clubes da Fifa, em 2000, contra o Vasco, no Maracanã.
Aqui não se entrará na inútil polêmica em torno do título, porque a discussão em questão se limita aos corintianos, pouco importando, para eles, o que pensam os que não sejam.
Porque o fato é que os corintianos festejaram, e muito, seu primeiro título mundial.
Pensam agora no bicampeonato, contra o Chelsea, se passarem pelo Boca Juniors.
Contra quem farão, repita-se, seu terceiro jogo mais importante, para ocupar a vaga da disputa contra o São Paulo, em 1990, quando se conquistou o até então inédito título brasileiro, no Morumbi, estádio palco também do epopeia de 1977.
Tite não confessará, mas há de ter torcido pela Universidad de Chile, obstáculo menos difícil de ser vencido na final.
A alma corintiana sente diferente.
Quer o mais complicado, o mais épico, o hexacampeão Boca Juniors, que fulminou Cruzeiro, Palmeiras, Santos e Grêmio em quatro das nove decisões continentais de que já participou.
Se for para ganhar, que seja assim, depois de derrotar três grandes campeões da Taça.
Imagine a festa de uma gente que saiu na pré-Libertadores no ano passado se a vencer no seguinte.
Imagine, ainda, se a Libertadores vier sem derrota, campeão invicto depois de 14 jogos.
Só não será maior do que foi a de 1977.

Publicado na Folha de S.Paulo, em 24/06/2012.